O ROCK NACIONAL ESTÁ MORTO E TODOS VIRARAM CERVEJEIROS

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Garrafas e latinhas agora disputam o mesmo espaço que os discos nas lojas da Galeria do Rock, em São Paulo.

Se os shows da Legião Urbana com Wagner Moura e a “ressurreição” holográfica de Cazuza pareciam a pá de cal na cova do que convencionamos chamar de rock brasileiro, o que mais poderia acontecer de ruim? Certamente, algo muito pior…

Lembro da primeira – e última – vez que tentei ouvir o álbum Immortal, do Shaman. Assim que entrou a voz do então novo vocalista, Thiago Bianchi, e olhando para a foto do sujeito, pensei: “Quantas horas esse cara deve passar na frente do espelho se penteando? Certamente ele daria um ótimo garoto propaganda de alguma marca de xampu”. Voltando ao presente, chego à conclusão de que o substituto de André Matos deveria lançar sua própria linha de produtos para cabelo – porque, atualmente, parece mais fácil ganhar dinheiro com merchandising do que com música.

O que mais se ouve por aí é que a internet matou o negócio de discos, o que é só meia verdade, afinal, até o vinil voltou a ter força nesses tempos digitais. De fato, o cerne da atual crise na música pop reside num problema que, nem de longe, pode ser considerado novo na indústria fonográfica: a falta de criatividade. E quando me refiro à música “pop”, estou falando também de rock e de metal. No que tange a esses dois estilos, a queda nas vendas dos álbuns, aliada à recorrente falta de criatividade e uma grande dose de oportunismo (o que tem de revival, reuniões e turnês picaretas hoje em dia é algo impressionante) tem estimulado outras frentes de negócios, e a música, cada vez mais, tem sido deixada em segundo plano.

Se antes as bandas se limitavam a licenciar suas marcas para pôsteres e camisetas, hoje o leque de produtos de qualquer conjunto iniciante é de fazer inveja até mesmo ao Kiss – banda que, ainda na década de 1970, havia sacado que a melhor forma de “mascarar” (com o perdão do trocadilho) um produto ruim é com um bom plano de marketing e muito, mas muito merchandising.

Mas, olhemos para o Brasil dos últimos vinte anos. O governo Itamar Franco venceu a inflação com o Plano Real; a gestão FHC manteve a estabilidade econômica; e a administração do PT vem promovendo uma maior distribuição de renda. Com tudo isso, houve um aumento no poder de compra de boa parte da população. E com mais gente entrando no mercado de consumo, surgiu uma nova classe de produtos e serviços, voltada para um público “diferenciado”: o famigerado premium. Hoje em dia, você pode tomar sorvete premium, viajar de avião na classe executiva premium ou curtir um show na pista premium. Porém, o exemplo mais emblemático desse novo falso demonstrativo de status é uma velha conhecida dos beberrões de plantão: a cerveja.

No país onde o conceito de Black Friday é “tudo pela metade do dobro”, não é de se estranhar que a cerveja premium seja, basicamente, aquela produzida com 100% de malte. Qualquer iniciante no universo da “birra” sabe que isso é o mínimo para se obter uma breja de verdade. Infelizmente, essa não é a realidade por aqui, e as marcas mais populares são feitas com quase 50% de cereais “não maltados”. Traduzindo, o que você toma no boteco é, na verdade, um suco de milho ou arroz (os tais cereais não maltados) com algumas notas de malte. Os grandes fabricantes alegam que trata-se de uma adaptação para o paladar local, afeito a uma bebida mais “suave e refrescante”. Conversa para bêbado dormir. A opção por utilizar menos malte visa apenas reduzir custos, já que é um ingrediente importado. Se Eike Batista foi por alguns anos o cara mais rico do Brasil dando balão nos investidores das empresas X, Jorge Paulo Lemann, dono da Ambev (maior fabricante nacional de cervejas) e atualmente o mais endinheirado do país, faz sua fortuna vendendo bebida praticamente adulterada.

Com a queda na qualidade dos principais rótulos de cerveja e com o aumento no número de consumidores dispostos a pagar mais por um produto melhor, começaram a pipocar inúmeras microcervejarias de olho no público que não tolerava mais loiras aguadas e tinha de recorrer às marcas importadas. Daí você me pergunta: o que isso tudo tem a ver com o que escrevi no começo do texto?

Se as vacas estão magras nos pastos do rock e as microcervejarias estão atrás de novos consumidores, então por que não unir o útil ao agradável? Ainda que a cerveja seja a bebida mais consumida nas rodas de samba, nas baladas sertanejas e nos bailes funk por todo o Brasil, é no rock e no metal que reside o público mais fiel, que adquire tudo relacionado aos seus artistas favoritos. Daí, o que se viu nos últimos tempos foi uma avalanche de lançamentos de rótulos premium de tudo quanto é tipo de banda, desde medalhões (Sepultura e Titãs) até formações do segundo escalão (Motorocker, Rosa Tattooada). Nem aquela emissora de rádio pseudorock (89 FM) ficou de fora. E mesmo o fã que não ingere álcool vai querer um item como esse em sua coleção, correto?

Certo, daí você me indaga novamente: qual o problema do artista querer fazer uma grana extra com cerveja, já que vender música não tem sido um bom negócio? Respondo com outra pergunta: o que essas bandas fizeram de musicalmente relevante nos últimos tempos para justificar boas vendas? Vejamos alguns exemplos:

Angra – O último trabalho de estúdio, o razoável Aqua, é de 2010; desde então, só tem se apresentado ao vivo, agora com novos vocalista e baterista – Fabio Lione e Bruno Valverde, respectivamente. Álbum novo que é bom, nada, mas a banda já lançou duas (!) cervejas.

Nenhum de Nós – Quem são esses, mesmo…? Enfim, além de o baterista escrever sobre cerveja para um jornal, a banda criou um rótulo cujo nome é inspirado em seu quase único – tem também aquela versão para Starman, do David Bowie – sucesso, Camila.

Raimundos – Doze anos foi o intervalo entre o mediano Kavookavala (2002) e o álbum mais recente, Cantigas de Roda. Não tinham dinheiro para gravar um disco (o último foi bancado pelos fãs), mesmo assim conseguiram lançar sua cerveja durante esse hiato.

Sepultura – Ainda que tenham feito as pazes com os fãs graças aos dois últimos trabalhos, os bons Kairos e The Mediator…, e lembrando que o grupo praticamente lançou a moda por aqui, com sua weiss comemorativa de 25 anos de atividades, o Sepultura resolveu apelar, e agora lançou até um “kit caipirinha” junto com uma edição especial do mais recente disco.

Titãs – Oportunistas como poucos, soltaram neste ano um álbum “engana trouxa” intitulado Nheengatu – ok, se comparado ao terrível Sacos Plásticos, registro anterior do conjunto, trata-se de uma verdadeira obra-prima. Antes disso, é claro, puseram nas prateleiras sua própria cerveja.

Ultraje a Rigor – Como alguém já escreveu por aí, Roger Moreira virou o “Derico” do Danilo Gentili. Precisa dizer mais alguma coisa?

Korzus, Inocentes, Hangar, Ratos de Porão (João Gordo também tem uma breja “solo”), Matanza e Velhas Virgens igualmente licenciaram suas marcas de cerveja, mas devemos dar um desconto às duas últimas, já que são formações conceitualmente etílicas, portanto faz todo sentido elas terem seus próprios rótulos.

E você acha que essas cervejas, só pelo fato de serem classificadas como premium, são invariavelmente boas? Ledo engano, algumas são nobres porcarias, mas como o foco aqui é a música, deixo que cada um faça sua própria avaliação, até porque não é preciso ser fã de nenhuma dessas bandas para provar tais rótulos – ainda que o preço muitas vezes desencoraje o habitual consumidor de cervejas “comuns”. De todo modo, fica o aviso para evitar uma ressaca daquelas – mal do qual o rock brasileiro vem sofrendo há anos, e o pior, sem nenhuma expectativa de melhora.

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